Nosso Padroeiro São Paulo Apóstolo

PAULO PAULOApós a experiência de Damasco, após o Batismo e o encontro com aquela comunidade de crentes em Cristo, Paulo não vai imediatamente a Jerusalém para se encontrar com os Apóstolos, mas vai para a Arábia (cf. Gl 1,17). Trata-se provavelmene da região ao sul de Damasco, no Reino dos nabateus, com cidades de alguma importância; não temos notícias, mas podemos imaginar que feito ali as suas primeiras experiências de evangelização, talvez sem êxito, visto que depois nunca fala disso.

“Depois voltei para Damasco” (Gl 1,17): Portanto, Paulo tinha partido daquela cidade e isso confirma indiretamente a narração dos Atos acerca da cidade onde dera os seus primeiros passos de “convertido”.

Passados três anos, para escapar ao etnarca do rei Aretas que tentou prendê-lo – provavelmente instigado pela crescente hostilidade da parte da sinagoga (cf. At 9,22-24) – Paulo teve de fugir da cidade. A rocambolesca fuga é narrada em 2Cor 11,32.

De Damasco dirige-se para Jerusalém “para conhecer Pedro”. Este primeiro e significativo encontro dura quinze dias e, como ele próprio conta, não viu mais nenhum dos Apóstolos, a não ser Tiago, o irmão do Senhor” (Gl 1,18-19); Tiago não é um dos Doze, mas fazia parte dos parentes de Jesus e bem cedo assumiu um papel de primeiro plano na Igreja de Jerusalém).

Para Paulo este deve ter sido um período de reflexão; os Atos descrevem-nos um quadro onde Paulo tem dificuldade em encontrar o “seu lugar”: não obstante a obra de mediação de Barnabé, estimado pela comunidade, os discípulas de Jerusalém desconfiam dele devido ao seu passado. Além disso, Paulo é contrariado pelos hebreus de língua grega que ele procura convencer que Jesus é o Messias: eles até tentam matá-lo (At 9,26-29). Perante estas dificuldades, que arriscavam envolver a comunidade judaico-cristã que até agora gozara de certa tranquilidade em Jerusalém, aconselharam Paulo a partir: o destino será sua terra natal, Tarso (At 10,30). Em Gl 1,21 Paulo escreve: “Depois fui para as regiões da Síria e da Cilícia.”)

Passaram catorze anos antes de Paulo voltar a Jerusalém (cf. Gl 2,1). O motivo não terá sido por aquela Igreja o querer longe de Jerusalém, mas sim devido ao fato de ele correr perigo de vida (como depois os fatos da agressão e prisão no pátio do templo o demonstraram, cf. At 22,22-24).

 

O anúncio aos pagãos

Entretanto o anúncio cristão começava a avançar mesmo entre os pagãos: os Atos contam que depois da lapidação de Estevão em Jerusalém, os crentes em Jesus de cultura elitista são perseguidos e por isso fogem para as regiões à volta (cf. At 8, 1.4-5), chegando a Fenícia, a Chipre e a Antioquia. Até aquele momento o anúncio era dirigido para os judeus que ali se encontravam na diáspora (11,19), mas bem depressa na Antioquia da Síria o Evangelho foi anunciado pela primeira vez também aos gregos, “e um grande número acreditou e converteu-se ao Senhor” (11,20.21). Quando a notícia chegou aos ouvidos da Igreja de Jerusalém, ela decidiu enviar Barnabé para conhecer a situação. Perante a autenticidade da adesão dos gregos à fé, Barnabé encoraja-os a perseverarem, pois viu que naquela comunidade nascente se abre uma grande possibilidade de apostolado, e por isso vai buscar Paulo a Tarso. Ambos, durante um ano inteiro, se dedicam à instrução e formação dos crentes, e foi ali em Antioquia – como anota Lucas – que se começou a chamar os crentes pelo nome de “cristãos” (At 11,26).

Entretanto, sempre segundo Lucas, aconteceu o episódio emblemático do centurião Cornélio, o primeiro pagão a quem foi anunciado o Evangelho e que foi batizado: ao Atos referem que Pedro é que ultrapassou antigos preceitos que impediam que um hebreu como ele se abrisse à novidade de Deus e que agisse para lá das fronteiras de Israel (At 10); Pedro acolhe esta “permissa” do Evangelho de que o texto sagrado fosse pregado aos pagãos e justifica-se aos fiéis de origem hebraica que não admitiam esta “familiarização” contaminante com os incircuncisos (At 11,1-18). As objeções que os convertidos do judaísmo opuseram ao agir de Paulo para com os pagão que aderiam à fé em Jesus Cristo (cf. At 15, 1.5; 21, 21-25), já antes as tinham feito ao modo de agir de Pedro. Com a ajuda do Espírito Santo, Pedro tinha-as resolvido e justificara o seu modo de agir perante a Igreja nascente.

 

Fogo e chamas

O “problema” da identidade

Um perigoso impasse

O Novo Testamento testemunha-nos que a Igreja primitiva adquiriu progressivamente uma compreensão cada vez mais ampla das potencialidades e das implicações da mensagem evangélica. Jesus exerceu o seu ministério no interior do mundo judaico e nunca forneceu indicações exatas sobre o modo como a missão deveria ser exercida fora dos confins de Israel.

Este processo teve necessidade de tempo e sobretudo de uma certa criatividade para encontrar as respostas certas para as nova questões que surgiam. Certamente que o Espírito Santo não deixou faltar a sua luz para iluminar o caminho da comunidade dos crentes, caminho cheio de dificuldades e resistências humanas.

A grande questão que se apresentava ao cristianismo nascente e que agitava principalmente a Igreja-mãe de Jerusalém, de tipo judaico-cristão, dizia respeito ao próprio modo de conceber a fé “cristã” no seu relacionamento com as tradições judaicas e sobretudo com a lei de Moisés: o problema surgia a respeito da novidade dos crentes em Jesus, os não hebreus que vinham dos gentios. O que deviam fazer para se salvarem? Deviam antes acolher o hebraísmo e observar a Lei de Moisés, ser circuncidados, guardar o descanso sabático e as regras alimentares, para depois aderirem a Jesus como o Messias? Ou bastava aderir a Jesus Cristo confessado como o Kyrius, o Senhor Crucificado e Ressuscitado para a salvação de todos os homens? Paulo foi quem mais do que todos contribuiu para desbloquear este impasse: graças sobretudo à sua experiência pessoal do encontro com a misericórdia no caminho de Damasco, compreendeu que Deus vai ao encontro de todos os homens sem fazer particularismo ou distinções, e que o Evangelho é graça, é perdão e salvação para todos, para os judeus e para os pagãos: depois de fazer uma longa reflexão ele consegue exprimir uma teologia inclusivista, capaz de demonstrar que o Evangelho comporta inevitavelmente a abertura universal da Igreja, mas sobretudo a equiparação dos pagãos ao nível dos judeus: antes dele já se admitia que os pagãos pudessem chegar à salvação, mas tratava-se de poderem chegar à salvação sem antes passarem pelo hebraísmo, pela circuncisão e pelas outras práticas da Lei de Moisés.

 

A assembleia de Jerusalém

Os Atos dos Apóstoso contam os fatos quando já tinham passado trinta anos, enquadrando o explodir da questão no regresso da primeira viagem missionária de Barnabé e Paulo: alguns judaico-cristãos chegados à Antioquia da Judeia contrariam a metodologia missionária de Paulo, que prescindia de aderir ao judaísmo e da prática da circuncisão: para eles também se podiam acolher na comunidade do crentes em Jesus Messias os não hebreus convertidos, mas só no caso de aceitarem as prescrições da Lei de Moisés, porque de outro modo não podiam salvar-se (At 15,1).

Não conseguiu sanar o desacordo que causa a incerteza e confusão na comunidade, e por isso decidiu-se recorrer à autoridade dos Apóstolos e dos anciãos de Jerusalém. Paulo e Barnabé, juntamente com uma delegação da comunidade, foram por eles recebidos. As posições contrárias foram apresentadas à assembleia reunida, e seguiram-se os discursos de Pedro e de Tiago; no fim chegou-se a um compromisso e a uma resposta decisiva: não se deve impor o jugo da Lei aos pagãos que aderem à fé em Jesus: “Acreditamos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus” (15,11); só se acrescentaram quatro cláusulas: que se abstivessem das carnes imoladas aos ídolos, das uniões sexuais ilícitas, dos animais sufocados e do sangue (cf. At 15,20; 21,25).

No texto da Carta aos Gálatas em que Paulo poucos anos depois (talvez cinco) trata destes mesmos acontecimentos (Gl 2,1-10) como resultado desta assembleia ele põe em evidência sobretudo a aprovação da sua atividade missionária entre os gentios e, como prova da veracidade desta decisão fatídica, refere que está ali com ele Tito, que embora sendo grego não foi obrigado a circuncidar-se (Gl 2,3). O acordo final referia que ele se dedicaria à evangelização dos pagãos, e que Tiago, Pedro e João evangelizariam os circuncisos (formulação que o põe no mesmo plano de Pedro, cf. Gl 2,8). A única exigência que lhe é feita pela assembleia é que se recorde de socorrer as necessidades dos pobres da Igreja de Jerusalém, coisa que Paulo se compromete a fazer com a ajuda das outras Igrejas (cf. Gl 2,10; Rim 15,26). Quanto às cláusulas acima referidas, Paulo parece querer ignorá-las: “Apesar da sua autoridade nada me impuseram” (Gl 2,6). Acerca das quatro cláusulas recordadas por Lucas, Paulo trata da primeira em 1Cor capítulos 8 e 10, quando fala se as carnes sacrificadas aos ídolos se podiam comer ou não. A este respeito ele deixa grande liberdade, desde que se não dê escândalo ao irmão mais fraco ou escrupuloso: a caridade e o respeito pela consciência dos outros é que deve regular as decisões da pessoa livre.

Portanto, destas cláusulas não se encontra nada nas comunidades de Paulo; estas regras talvez tenham sido decididas por Tiago e depois repensadas nos casos de comunidades mistas, onde havia cristãos provenientes do hebraísmo (judaico-cristãos) e do paganismo (étnico-cristãos), por um respeito prudencial para com os convertidos do hebraísmo.

 

A controvérsia de Antioquia

Uma comunidade com estas características podia ser a de Antioquia, onde – pouco depois da assembleia de Jerusalém – se verifica este “incidente” ou controvérsia, durante uma visita de Pedro: primeiro Pedro come tranquilamente com os convertidos do paganismo (transgredindo as regras judaicas de pureza), e quando depois chegam alguns judaico-cristãos, fiéis às tradições judaicas, Pedro muda de comportamento e começa a evitá-los, como se eles também fossem obrigados a cumprir as prescrições ou tradições judaicas. Perante estas atitudes duvidosas que geravam confusão – em que o próprio Barnabé participara – Paulo, em nome da “verdade do Evangelho”, criticou Pedro diante de todos pela sua incoerência (G 2,11-14): a fidelidade àquela verdade – e à imparcialidade do dom de Deus feito a hebreus e a pagãos – que impõe de não ceder a nenhuma forma de hipocrisia. Contando este episódio aos crentes da Galáxia, é como se Paulo os quisesse avisar para não se submeterem a estes compromissos, que até tinham chegado a enganar os Apóstolos Pedro e Barnabé.

Não temos mais nenhuma versão deste “incidente” (os Atos não falam dele), e Paulo também não diz como é que acabou (aproveita a ocasião deste conflito para começar a falar da justificação pela fé, sem as obras da Lei). O resultado deste conflito talvez não tenha sido favorável a Paulo; uma confirmação indireta vem dos Atos, que apresentam a divergência e depois a separação entre Paulo e Barnabé no início de uma nova viagem missionária (At 15, 36-41); Barnabé leva consigo João Marcos (que Paulo não queria como colaborador, por já uma vez os ter abandonado, cf. At 13,13), Paulo escolhe Silas como companheiro para a segunda viagem missionária.

Em suma, o relacionamento entre Paulo e a Igreja de Jerusalém nunca foi idílico: ele reconhece o papel da Igreja-mãe, sabendo que todo o mundo está em dívida para com ela, pelos bens espirituais que dela recebeu (cf. Rm 15,27) e procura sempre a aprovação dos Apóstolos mas, ao mesmo tempo, quando sente que está em jogo a verdade do Evangelho tal como lhe foi revelado, não hesita em intervir com força e franqueza, fazendo valer todas as suas convicções, mesmo quando não estão de acordo com as convicções dos grandes expoentes da Igreja-mãe.

 

Os Apóstolos e Paulo “Apóstolo”

Paulo não conheceu Jesus antes da sua morte (e ressurreição), ao passo que os discípulos de Jesus viveram com Ele desde o batismo até a sua Ascensão ao Céu, e pertenceram ao grupo dos Doze. Segundo o autor dos Atos só estes últimos podem ser considerados “Apóstolos” para todos os efeitos (cf. At 1,21-22). Por este motivo, embora exaltando no seu livro a figura de Paulo mais que a de todos os outros, Lucas – exceto duas vezes no plural e mais em sentido genérico (At 14,4.14) – não lhe atribui este título e nota-se a sua tendência a distinguir entre Paulo e os “Apóstolos”, cf. 15,2; 16,4).

Nas suas cartas, porém, Paulo define-se Apóstolo de pleno direito, chamado por Deus ao apostolado (cf. 1Ts 2,7; 1Cor 1,1; 2Cor 1,1; Gl 1,1 e Rm 1,1. Em Rm 11,13 designa-se a si próprio como “Apóstolo dos gentios”, e defende várias vezes esta prerrogativa, evidentemente porque havia quem duvidasse dela. Em diversas passagens das suas cartas expõe com clareza esta sua qualidade: Deus revelou-lhe o seu Filho (Gl 1,5-16); viu o Senhor (1Cor 9,1); apareceu-lhe como aos outros Apóstolos (1Cor 15,8); realizou as obras típicas do apostolado, ou seja, os sinais, os milagres, e os prodígios (2Cor 12,12). A prova de o seu apostolado ter sido mandado por Jesus é a própria comunidade gerada para a fé através da sua pregação (1Cor 9,2-3). Ela constitui uma espécie de “credencial” para apresentar em comparação com aqueles que apresentam outros títulos de autoridade apostólica (cf. 2Cor 3,2: “A nossa carta sois vós”). Não obstante isto, Paulo reconhece aos Doze, que têm Pedro como chefe (Gl 1,17.19), uma autoridade especial e deseja ser confirmado por eles: “Subi a Jerusalém... e expus privadamente às pessoas mais importantes o Evangelho que prego aos pagãos, para evitar o risco de correr ou de ter corrido em vão” (Gl 2,2); e deseja fazer ressaltar que a sua atividade apostólica é exercida de acordo com eles: “Tiago, Pedro e João, que eram considerados as colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão, para que nós fôssemos pregar aos pagãos, e eles aos circuncidados” (Gl 2,9).

O carisma de Paulo não é a clareza, mas a novidade e a densidade...

Ele está sempre “em viagem”, sempre pronto a enfrentar novas situações, a partir do centro da sua fé, sem qualquer modelo de apoio, sem a confirmação de um regulamento adaptado às várias circunstâncias.

A sua missão é abrir novos caminhos por toda parte, deixando para os outros os caminhos normais.

 

Grandes distâncias

As viagens missionárias

Um homem a caminho

Paulo é merecidamente considerado o maior teólogo do princípio do Cristianismo. As suas cartas tiveram um papel de primeiro plano na elaboração da doutrina da Igreja, e no entanto Paulo foi principalmente um homem de ação, um evangelizador, um fundador de comunidades. Ele é sobretudo um homem sempre “a correr para a meta”: Paulo usa muitas vezes esta metáfora nas suas cartas: (cf. 1Cor 9,24; Gl 2,2; 5,7 Fl 2,16; etc.) quer para indicar a sua atividade apostólica, a “corrida do Evangelho”, quer para exprimir o caminhar rápido do cristão. É também a imagem principal com que o livro dos Atos inicia: Paulo está quase sempre em viagem; calcula-se que tenha percorrido mais de 15.000 quilômetros, um número impressionante para os meios de transporte do seu tempo!

Como lugares de missão ele escolhe as cidades, principalmente por motivos práticos: porque tinham boas estradas para a elas chegar, porque nelas se falava correntemente o grego (ao passo que nas aldeias se falavam mais os dialetos locais), e porque ele costumava dirigir-se aos judeus da diáspora, que nos centros urbanos quase sempre tinham uma sinagoga.

Seguindo a narração de Lucas, a missão de Paulo divide-se em três viagens, ou em quatro se considerarmos a última até Roma.

 

A primeira viagem (At 13-14)

Segundo a narração de Lucas (nas cartas não se fala desta viagem), Barnabé e Paulo, depois de um ano de intenso trabalho apostólico em Antioquia, sob a inspiração do Espírito Santo, são enviados por aquela Igreja, em missão evangelizadora, sendo Barnabé o chefe da missão.

De barco partem de Selêucia e chegam a Chipre; acompanhados por João Marcos (cf. At. 12, 12.25), pregam aí a Palavra de Deus, encontrando o pro cônsul romano Sérgio Paulo (At. 13,9 escreve a primeira vez o nome latino de Saulo, Paulo); dali partem para as regiões do sudeste da Anatólia, passando por Perga (aqui João Marcos separa-se deles e volta para Jerusalém), Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe na Licaônia; depois voltam pelo mesmo caminho, reanimando aqueles que tinham aderido à fé, até chegarem a Antioquia da Síria de onde tinham partido. Várias vezes se repete o fato de enquanto os judeus recusam a pregação dos Apóstolos e se opõem usando a violência contra os missionários, pelo contrário os pagãos recebem-nos com alegria.

 

A segunda viagem (At 15,36-18,22)

Paulo, sendo agora chefe da missão, toma consigo Silas, e da Antioquia da Síria atravessam a Síria e a Cilícia, passando novamente pelas cidades visitadas na viagem anterior, Derbe e Listra; aqui Paulo toma consigo o discípulo Timóteo (filho de uma hebreia e de um pagão, e fá-lo circuncidar) e juntamente atravessam a Frígia e a Galácia evitando o território da Ásia (que tinha Éfeso como capital) e chegam a Tróade. Daqui o grupo embarca para a Macedônia na Europa, desembarca em Neápoles, chega a Filipos (primeira narração do Batismo de uma mulher, Lídia, cuja casa se torna ponto de referência da comunidade); depois de terem sido açoitados e metidos na prisão (por terem libertado uma escrava que ganhava muito dinheiro para os seus patrões), deixam Filipos e chegam a Tessalônica e depois a Bereia. Em ambas as cidades anunciam o Evangelho nas sinagogas, e surgem confrontações e dificuldades. Assim, Paulo parte para Atenas deixando ali Silas e Timóteo. Em Atenas prega primeiro na ágora (foro romano) e depois no Areópago. Depois parte para onde encontra o casal Áquila e Priscila. Hospeda-se na casa deles (tinham o mesmo ofício de Paulo, fabricantes de tendas) e quando Silas e Timóteo vêm ter com Paulo, ele dedica-se completamente à pregação, permanecendo ano e meio nesta cidade. Aqui dá-se o episódio de Paulo comparecer como acusado perante o pro cônsul Galião (que exerceu o cargo entre o fim do ano 50 e o princípio do ano 52). Deixando Corinto do seu porto oriental, Cêncreas, passa brevemente em Éfeso juntamente com Priscila e Áquila (que ficam ali) e continua depois em direção à Palestina, desembarcando em Cesareia, e dali sobe a Jerusalém antes de voltar a Antioquia da Síria.

 

A terceira viagem (At 18,23-21,16)

Tal como nas duas missões anteriores partem de Antioquia, e desta vez dirigem-se para Éfeso, onde durante dois anos Paulo exerce uma intensa atividade apostólica alargada às cidades em volta. Com a adesão à fé de muita gente, dá-se a diminuição das práticas religiosas pagãs, principalmente do culto a Ártemis. Isto suscita a revolta da população organizada pelos que fabricavam santuários de prata da deusa Ártemis e viam o seu comércio ameaçado. Paulo tem de fugir, passa pelas cidades antes evangelizadas da Macedônia, e detém-se três meses na Grécia, provavelmente em Corinto. Daqui volta atrás pela Macedônia: de barco chega a Tróade, depois vai a pé até Asso; depois, passando velozmente pelas ilhas de Mitilene, Quios e Samos, Chega a Mileto (onde se encontra com os anciãos da Igreja de Éfeso e fala demoradamente com eles); depois volta a partir rodeando as ilhas de Cós e de Rodes até Pátara. Partiram num barco que ia para Tiro. Dali foram para a Cesaria e subiram pela última vez a Jerusalém.

 

Apóstolo e formador

Com todas estas viagens a narração dos Atos pode dar ao leitor uma sensação de contínuo movimento, como se Paulo nunca parasse. Mas se lemos com atenção reparamos que referem em várias ocasiões que Paulo ficou durante muito tempo num lugar, por exemplo mais de ano e meio em Corinto e dois anos e meio em Éfeso. Quando a pregação da Palavra gerava novos crentes era de fato necessário instruí-los; Paulo não deixava estas comunidades que se estavam a formar sem ter a certeza de que estavam suficientemente sólidas na fé, e procura deixar com eles um dos seus companheiros de missão, ou escolhia colaboradores da própria comunidade depois de os ter formado (cf. 1Ts 5,12-13; 1Cor 16,15-16; etc.). Também lhes escrevia cartas para os ajudar quando estava longe. Quer os Atos, quer as cartas de Paulo referem que nas suas viagens Paulo não caminhava ao acaso, mas recebendo várias vezes as inspirações do Alto (cf. Gl 2,2), ou adaptando-se às circunstâncias exteriores (cf. GL 4,13). Ele tem consciência de que lhe foi confiada uma grande missão, de uma amplidão ecumênica, sem limitações de espaço ou de etnias: em Rm 15,19 emerge claramente a grandiosidade do seu projeto missionário: “... partindo de Jerusalém e em todas as direções até à Ilíria, levei a bom termo o anúncio do Evangelho de Cristo”; escrevendo à comunidade de Roma o seu olhar estende-se para além daquela cidade, porque dali quer chegar à Espanha (15,24); a sua intenção – e também um ponto de honra – é levar Cristo aonde ainda não foi anunciado (cf. 2Cor 10,15; Rm 15,20).

 

“Tudo desde que Cristo seja anunciado!”

Comparadas com os Atos, são demasiado escassos os particulares e os dados cronológicos e geográficos que as cartas de Paulo nos fornecem sobre a atividade missionária. No entanto, alguns merecem ser evidenciados. Particularmente significativo é o fato de Paulo renunciar ao direito (que tinha como Apóstolo) de se fazer manter pela comunidade, preferindo ganhar o seu sustento com as próprias mãos, para impedir qualquer pretexto que pudesse obstacular o Evangelho (cf. 1Cor 9). Escrevendo aos Corintios, Paulo menciona as afrontas que sofreu em Éfeso (1Cor 15,32), onde juntamente com Timóteo escapou a uma condenação à morte (2Cor 1,8-9), e as numerosas adversidades suportadas desde então ao longo do seu apostolado: “Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um; três vezes naufraguei e passei no abismo uma noite e um dia. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos dos meus concidadãos, perigos dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos da parte dos falsos irmãos...” (2Cor 11,24-26). Aquilo que mais ressalta nas Cartas é sobretudo a intenção de fundo que o faz correr: “O amor de Cristo me domina” (2Cor 5,14), não o amor que Paulo tem para com Cristo mas o amor que Cristo tem para Paulo e que experimentou no encontro com Ele no caminho de Damasco; este amor gratuito e incondicional não o deixa tranquilo, causa-lhe uma inquietação de fundo que o impele a fazer tudo para que o maior número possível de homens e mulheres possam ter a mesma experiência e se tornem como ele “nova criatura” em Cristo. Ele exprime-o de vários modos: aos Romanos confessa que se sente em dívida para com todos, para com os gregos e os bárbaros, para com os sábios e os ignorantes (Rm 1,14); aos Coríntios testemunha que para ele anunciar o Evangelho se tornou uma necessidade que se impõe por si própria, e que fazê-lo gratuitamente já é uma recompensa; por isso não hesita um instante em fazer-se servo de todos para salvar alguns a todo o custo (1Cor 9,16-23). Com os Filipenses chega até a afirmar que não importa quem seja a pregar Cristo nem a finalidade com que o faça, “desde que de qualquer maneira, com hipocrisia ou com sinceridade, Cristo seja anunciado, com isso me alegro e me alegrarei sempre” (Fl 1,18).

 

Cara ou cruz

De Jerusalém a Roma

As últimas e fracas informações que recebemos diretamente de Paulo sobre a sua vida encontram-se na Carta aos Romanos, quando, escrevendo a esta comunidade – que não foi fundada por ele –, exprime claramente a sua intenção de os visitar para gozar o seu acolhimento e ser ajudado a ir para a Espanha (Rm 15,23-24); mas antes quer passar por Jerusalém para entregar o resultado da sua coleta feita a favor dos pobres. A este propósito pede orações aos cristãos de Roma para que possa escapar aos adversários judeus que o querem eliminar e para que a Igreja de Jerusalém aceite a coleta; evidentemente havia o risco de a recusarem devido aos preconceitos que tinham acerca dele. Os temores de Paulo não se revelaram inundados. Depois os Atos dedicam muito espaço aos fatos que vão desde a chegada de Paulo a Jerusalém, com a sua prisão, até chegar prisioneiro a Roma (At 21,17-28,31) e estranhamente à coleta só acenam de fugida (cf. At 24,17; talvez porque o êxito foi negativo?) Aconselhado pelos anciãos que tinham Tiago por chefe, para se aproximar dos judeus cristãos de Jerusalém mais tradicionalistas, Paulo aceita demonstrar publicamente que observa a Lei de Moisés, entrando no Templo e realizando algumas práticas rituais judaicas. Acusado por alguns judeus de ter profanado o Templo, é salvo in extremis pela guarda romana que o livra de ser espancado pela multidão enfurecida e o leva para a prisão. Transferido para Cesareia, entre várias audiências e processos em que várias vezes afirma a sua inocência, ali fica dois anos prisioneiro. Tendo direito, enquanto cidadão romano, Paulo apela para o tribunal de César, e fazem-no partir para Roma. Depois de uma primeira travessia até Mira, o barco que leva Paulo e outros prisioneiros é apanhado por uma violenta tempestade (já estávamos nos fins do Outono) em frente de Creta. Depois de andar catorze dias à deriva o barco acaba por encalhar nas costas de ilha de Malta. Tal como Paulo tinha profetizado, todos os 276 passageiros conseguem salvar-se; dali só podem partir para Itália três meses depois com um barco vindo da Alexandria.

Passam pelos portos da cidade de Siracusa, Régio e Putéolos. Depois por terra firme, caminham pela Via Ápia até Roma, sendo acolhidos pelos cristãos da cidade que vão ao encontro de Paulo no Foro Ápio e nas Três Tabernas.

A Paulo foi concedido viver em prisão domiciliária, com um soldado a guardá-lo; fica ali dois anos, com a possibilidade de receber pessoas “ensinando o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo, com toda a franqueza e sem obstáculos” (At 28,31).

Assim termina o livro os Atos dos Apóstolos sem nos dizer como é que o processo terminou.

 

O martírio do Apóstolo

Segundo a tese tradicional das cartas pastorais mais tardias (Ti 1-2TM) – que quer pelo estilo quer pela teologia são com toda a probabilidade paulinas – Paulo terá sido libertado e terá voltado para o Oriente, para a área efesina e cretense. Depois terá regressado a Roma, terá sido novamente preso, e desta segunda prisão romana terá escrito duas cartas, uma a Timóteo e outra a Tito (de fato é só nestas cartas que se fala do seu regresso ao Oriente). Esta segunda prisão é que o terá levado ao martírio. Mas é mais provável que a condenação de Paulo à morte tenha acontecido no fim da sua primeira prisão em Roma.

Paulo é o trombone do Evangelho, o rugido do leão, um rio de eloquência divina.

Cada vez que o leio parece-me não ouvir palavras, mas trovões.

Inspirador das comunidades

As cartas de Paulo

Paulo escritor?

Paulo não nasceu para ser escritor. Na sua formação aprendera a ler e a explicar os textos sagrados, e não a escrever os seus comentários (o ato material de escrever era ofício dos escrivões, de que Paulo também se serviu; ele tinha alguma dificuldade em usar a pena; cf. Gl 6,11). Sabemos que começou a produzir coisas escritas quando tinha mais de cinquenta anos, vinte anos depois de se tornar cristão; não porque sentisse esta vocação de improviso (ele tinha sido chamado a evangelizar os pagãos e não a escrever cartas). Sentiu-se obrigado a usar este meio de comunicação por ser muito útil para o seu trabalho apostólico. Os seus escritos não são fruto de especulações feitas sentado a uma mesa, imaginando cenários possíveis e prováveis: ele escreve obrigado pela necessidade de se tornar presente às comunidades onde sente que é importante fazer chegar o seu pensamento, para indicar soluções para problemas concretos e variados, para ensinar, motivar, corrigir, repreender, consolar, encorajar, etc.

Portanto, trata-se essencialmente de escritos de circunstância (excetuando a Carta aos Romanos), que não pretenderam escrever uma doutrina teológica válida para todos os tempos e comunidades: Paulo não previa que a sua correspondência viesse a ter uma ressonância tal ao ponto de ser incluída no cânone dos escritos sagrados e normativos de todo o cristianismo!

Tanto isto é verdade que ele pensava estar iminente o fim dos tempos.

O “estilo” das cartas de Paulo

Os seus escritos são absolutamente os primeiros da literatura cristã, que começa precisamente com o gênero literário mais coloquial que existe (e não com um tratado).

Comparadas com os modelos da epistolografia antiga, as cartas de Paulo só se lhes assemelham em alguns aspectos formais, como a introdução (remetente, destinatário, saudações) e a conclusão (desejos e saudações) mas distinguem-se por vários aspectos originais, e depois pelos conteúdos: antes de mais o tamanho médio das suas cartas é muito superior ao das cartas antigas que conhecemos (por exemplo as de Cícero e de Sêneca); há depois o fato de serem escritas para um determinado grupo de pessoas (a mais “privada” é um bilhete escrito a Filémon) e destinadas a serem lidas publicamente na assembleia; por fim emerge o caráter de autoridade do remetente que lhe advém por ser reconhecido como Apóstolo, fundador e guia das comunidades.

Devido à sua esmerada formação rabínica, Paulo faz grande uso das Escrituras hebraicas e do método de interpretação praticado pelos rabinos; nos seus escritos notamos um bom conhecimento da arte de bem falar – que era ensinada nas escolas gregas – com o frequente uso das figuras e dos expedientes retóricos (a metáfora, a alegoria, a metonímia, a hipérbole, a ironia...).

O seu estilo e a sua linguagem destacam-se das elevações do estilo grego clássico (que encontramos, por exemplo, num filósofo hebreu seu contemporâneo, Filon Alexandrino, espelham a prontidão e a vivacidade da língua falada, que evita o estilo rebuscado, usando principalmente a força da argumentação para falar à inteligência, e o poder das frases densas e das antíteses que causam admiração; podemos aplicar ao seu modo de escrever aquilo que o próprio Paulo declara numa sua carta sobre o modo de falar: “Quando fui ter convosco, não me apresentei com o prestígio da oratória ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. [...] a minha palavra e a minha pregação não tinham brilho nem artifícios para seduzir os ouvintes, mas a demonstração residia no poder do Espírito, para que acrediteis, não por causa da sabedoria dos homens, mas por causa do poder de Deus” (1Cor 2,1.4-5). Se ele por humildade se define “profano na arte de falar” (2Cor 11,6) não faltam textos nas suas cartas que atingem altos níveis literários e até poéticos (cf. o hino ao amor de Deus de Rm 8,31-39 ou o hino de amor cristão de 1Cor 13).

 

No cânone do Novo Testamento

No Novo Testamento 13 cartas reivindicam explicitamente a paternidade do Apóstolo (um caso a parte é a Carta aos Hebreus que em tempos passados era atribuída a Paulo: na realidade, não se nomeiam nem remetente nem destinatários; além disso, mais do que uma carta é uma homilia); destas cartas, or razões estilísticas e teológicas, só sete lhe são atribuídas com certeza (“protopaulinas”: 1Ts; 1-2Cor; Fl; Fm; Gl; Rm), as outras com diverso grau de incerteza, são atribuídas a discípulos posteriores, segundo o difuso fenômeno da pseudo-epigrafia (“deuteropaulinas”: Cl; Ef; 2Ts; 1-2Tm; Tt; as últimas três são chamadas “pastorais”). Naturalmente que isso não afeta minimamente a qualidade de “inspirada” e “canônica” destas cartas.

Sabemos que bem cedo chegaram às várias comunidades (cf. Cl 4,16) e foram postas em conjunto; o autor da segunda Carta de Pedro menciona-as (cf. 2Pd 3,15-16) dando a entender que as comunidades a que ele se dirige as conhecem; implicitamente reconhece-lhes um grande valor, porque chega a compará-las com as Escrituras hebraicas.

De alguns acenos internos aos escritos vimos a saber que a recolha das cartas não está completa, que Paulo escreveu outras cartas que infelizmente se perderam (cf. 1Cor 5,9; 2Cor 2,4; 7,8; Cl 4,16). Acerca do cânone atual da Bíblia, deve recordar-se que a sucessão das cartas paulinas, tal como as encontramos no Novo Testamento, não segue a ordem cronológica, mas a ordem de grandeza; vai portanto da mais comprida (Rm) até a mais curta (Fm). Se tivesse sido seguida a ordem temporal, teríamos esta sequência: 1Ts (escrita no ano 50); 1Cor; 2Cor; Fl; Fm; Gl; Rm (escrita provavelmente no ano 58).

Faz-me sofrer e entristecer a ideia de nem todos conhecerem este homem como o deveriam conhecer, que alguns o ignorem a tal ponto de não saberem exatamente o número de suas cartas. E isto não por falta de instrução, mas por escassa vontade de se dedicarem com assiduidade a este santo.